Pular para o conteúdo
Rodrigo LaminBiomimética aplicada aos negócios

Organizações Vivas

A árvore não termina onde nossos olhos alcançam

Existe uma tendência humana de acreditar que as coisas terminam onde conseguimos enxergá-las. O corpo terminaria na pele, a árvore na casca, a floresta na soma das árvores que podemos distinguir e uma organização naquilo que aparece em seu organograma.

Raízes cobertas de musgo em uma floresta

Existe uma tendência humana de acreditar que as coisas terminam onde conseguimos enxergá-las. O corpo terminaria na pele, a árvore na casca, a floresta na soma das árvores que podemos distinguir e uma organização naquilo que aparece em seu organograma. Essa maneira de observar o mundo é útil porque nos ajuda a organizar a realidade, mas talvez seja insuficiente quando tentamos compreender aquilo que está vivo. Quanto mais profundamente observamos a natureza, mais difícil se torna estabelecer fronteiras tão precisas.

Uma árvore é um bom exemplo. Aquilo que vemos acima do solo é apenas uma parte de sua existência. Abaixo da superfície, suas raízes avançam por territórios que permanecem invisíveis aos nossos olhos e estabelecem relações com água, minerais, fungos, bactérias e matéria orgânica. Ao redor delas acontecem trocas químicas, processos eletroquímicos, comunicação entre organismos e movimentos de matéria e energia que sustentam aquilo que, na superfície, chamamos simplesmente de árvore. O organismo que admiramos só existe porque participa de uma rede muito maior do que ele próprio.

Talvez essa seja uma das primeiras provocações que essas imagens me despertam: a vida parece acontecer menos dentro de unidades isoladas e muito mais nas relações que elas conseguem estabelecer.

Onde termina um organismo?

A Biomimética nos convida a olhar para a natureza não apenas como uma fonte de recursos ou inspiração estética, mas como uma inteligência construída ao longo de bilhões de anos de experimentação. Quando fazemos isso com atenção, percebemos que a natureza raramente funciona por isolamento. Uma raiz depende do solo, o solo depende da matéria que se transforma dentro dele, a copa depende da luz, as flores encontram insetos, os frutos alimentam outros organismos e as sementes viajam por caminhos que a própria árvore jamais poderia percorrer.

Há uma circulação permanente sustentando o sistema. Circulam água, nutrientes, matéria, informações e energia. Mesmo aquilo que aparentemente desaparece de uma forma reaparece em outra. Uma folha que cai deixa de participar da copa, mas pode começar a participar do solo. A fronteira entre fim e continuidade se torna menos evidente quando passamos a enxergar ciclos em vez de eventos isolados.

Quando observo a imagem de uma pessoa apoiada em uma árvore, portanto, não vejo apenas dois organismos próximos. Vejo duas formas de vida inseridas no mesmo ambiente, atravessadas por ele de maneiras diferentes. A pessoa respira o ar daquele lugar, percebe sua temperatura, recebe sua luz, pisa no solo e reage aos estímulos ao redor. A árvore responde à mesma luz, ao mesmo clima, à disponibilidade de água e às inúmeras condições presentes naquele espaço. Não significa que pessoa e árvore deixem de ser organismos distintos, mas significa que nenhuma delas existe completamente separada daquilo que a cerca.

Talvez tenhamos superestimado a ideia de independência e subestimado a importância da interdependência.

Somos mais permeáveis do que imaginamos

Gostamos de pensar em nós mesmos como indivíduos claramente delimitados, mas biologicamente somos muito mais permeáveis. Nosso organismo depende de trilhões de microrganismos, reage à luminosidade, ao sono, à alimentação, à temperatura, aos sons, ao movimento e à presença de outras pessoas. Nosso sistema nervoso processa continuamente uma quantidade extraordinária de sinais ambientais sem que a maior parte deles se transforme em pensamento consciente.

Isso talvez explique por que algumas experiências são percebidas muito antes de conseguirmos explicá-las. Entramos em determinados ambientes e sentimos tranquilidade. Em outros, nosso corpo parece permanecer em estado de alerta. Há encontros que nos deixam intelectualmente estimulados e outros que, mesmo sem conflito aparente, nos deixam exaustos. Algumas conversas parecem ampliar nossa capacidade de pensar, enquanto outras produzem uma espécie de contração difícil de traduzir imediatamente em palavras.

Não precisamos recorrer a uma explicação mística para reconhecer essas experiências. Tampouco precisamos rejeitá-las simplesmente porque ainda não conseguimos identificar todas as variáveis envolvidas. Entre aquilo que conseguimos medir com facilidade e aquilo que somos capazes de perceber existe um território enorme de complexidade.

Talvez maturidade intelectual também seja saber permanecer nesse território sem a urgência de preenchê-lo com certezas.

Energia como fluxo, não como explicação

A palavra energia merece cuidado porque foi utilizada de tantas maneiras diferentes que, às vezes, perdeu precisão. Na natureza, porém, energia não é uma ideia abstrata. A luz solar sustenta processos biológicos, diferenças de potencial elétrico participam do funcionamento das células, impulsos percorrem sistemas nervosos, gradientes químicos permitem o transporte de substâncias e organismos inteiros dependem de fluxos constantes para permanecer vivos.

É nesse sentido que me interessa pensar energia dentro da Árvore do Cultivo: não como uma força misteriosa capaz de explicar qualquer coisa que ainda não compreendemos, mas como uma característica inevitável dos sistemas vivos. Onde existe vida, existe transformação. Onde existe transformação, existe circulação de energia, matéria e informação.

Nas relações humanas, utilizamos intuitivamente essa mesma palavra para descrever fenômenos mais complexos. Dizemos que determinado encontro nos deu energia, que um ambiente estava pesado, que um grupo parecia vivo ou que uma conversa nos drenou. Provavelmente estamos reunindo, em uma única expressão, uma grande quantidade de processos simultâneos: segurança psicológica, postura corporal, tom de voz, memória, expectativa, confiança, atenção, relações de poder, ritmos fisiológicos, iluminação, ruído, temperatura e inúmeros sinais que nosso organismo registra sem que consigamos isolá-los conscientemente.

Talvez o erro não esteja em perceber essas diferenças. O erro começa quando transformamos uma percepção complexa em uma explicação simplista.

Há coisas que sentimos antes de compreender, e admitir isso não exige abandonar a razão. Exige apenas reconhecer que nossa capacidade consciente de explicar a realidade é menor do que nossa capacidade biológica de interagir com ela.

As raízes são lugares de relação

Uma das imagens que mais me interessa nesse conjunto é justamente aquela em que o fluxo atravessa o solo e retorna à árvore. Costumamos utilizar raízes como metáfora de origem, identidade e sustentação, mas biologicamente elas representam algo ainda mais interessante: são interfaces entre organismo e ambiente.

A raiz não existe apenas para manter a árvore em pé. É através dela que acontece parte importante da relação entre o organismo e aquilo que está ao seu redor. Água, minerais e inúmeros processos biológicos passam por essa região de encontro. A árvore não se sustenta simplesmente porque possui raízes fortes, mas porque suas raízes conseguem estabelecer relações adequadas com o solo onde estão inseridas.

Essa observação amplia muito a ideia de raízes dentro da Árvore do Cultivo. Nossas raízes não representam apenas aquilo que aconteceu conosco. Elas representam aquilo do passado que continua participando do presente. Histórias, vínculos, experiências, medos, competências, valores e convicções continuam alimentando decisões muito depois de acreditarmos que determinadas fases ficaram para trás.

Uma organização pode mudar sua marca, seus produtos e sua estratégia e ainda continuar reagindo ao mundo a partir de crenças estabelecidas vinte anos antes. Uma pessoa pode iniciar uma nova carreira e carregar consigo formas de interpretar sucesso, fracasso, reconhecimento ou pertencimento que foram construídas muito antes daquela escolha.

Por isso, olhar para as raízes não deveria ser um exercício de nostalgia. É uma investigação sobre aquilo que continua circulando em nós.

A estabilidade também é movimento

Outra coisa que uma árvore nos ensina é que aquilo que parece imóvel pode estar profundamente vivo. O tronco transmite uma sensação de estabilidade, mas sua existência depende de movimento permanente. Dentro daquela estrutura aparentemente sólida, água e substâncias são transportadas, sinais percorrem tecidos e recursos são continuamente redistribuídos.

A estabilidade visível é sustentada por uma circulação invisível.

Talvez isso também aconteça com pessoas e organizações. Uma cultura empresarial parece algo relativamente estável, mas só existe porque determinados comportamentos continuam circulando nas conversas e decisões. A confiança não aparece em um organograma, mas altera profundamente a forma como informações se movimentam. O conhecimento pode estar registrado em centenas de documentos e, ainda assim, ser praticamente inútil se não conseguir atravessar pessoas, contextos e decisões.

Tenho pensado que muitos sistemas humanos que aparentam falta de inteligência talvez sofram, na verdade, de falta de circulação. O conhecimento existe, mas fica preso em determinados lugares. Pessoas percebem problemas, mas não encontram caminhos para fazer essas percepções atravessarem a organização. Informações chegam à liderança sem contexto, enquanto aprendizados da operação permanecem invisíveis para quem decide.

Quando a circulação diminui, o sistema começa a perder vitalidade, mesmo que aparentemente continue funcionando.

Aquilo que existe entre nós

A terceira imagem talvez seja a mais instigante porque há algo representado entre a pessoa e a árvore. Poderíamos tratar aquilo apenas como um recurso artístico, mas prefiro utilizá-lo como uma pergunta: o que existe entre dois organismos?

Existe um ambiente físico composto por ar, temperatura, som, luz, moléculas e campos eletromagnéticos. Existe também percepção, interpretação e resposta. Quando falamos de seres humanos, há ainda uma camada relacional que se torna especialmente interessante. Duas pessoas entram em uma sala e, antes mesmo de uma conversa profunda acontecer, seus organismos já começaram a perceber e responder um ao outro. Quando dezenas de pessoas se reúnem, surge uma dinâmica que não pertence integralmente a nenhuma delas, mas que influencia todas.

Um grupo pode tornar-se mais generoso, defensivo, curioso, silencioso, criativo ou inseguro. Cada pessoa participa da construção dessa atmosfera e, simultaneamente, passa a ser influenciada por ela. Existe, portanto, alguma coisa que não está apenas dentro de cada indivíduo, mas emerge das relações entre eles.

Podemos chamar isso de campo relacional sem atribuir ao termo qualquer significado sobrenatural. Trata-se simplesmente de reconhecer que sistemas produzem propriedades que não podem ser compreendidas observando apenas suas partes isoladamente. Uma floresta não é apenas um conjunto de árvores, uma comunidade não é apenas um conjunto de pessoas e uma cultura não é apenas a soma das opiniões individuais de seus integrantes.

Há algo que emerge do encontro.

E talvez uma parte importante do cultivo aconteça justamente nesse espaço.

Cultivar é cuidar das relações que sustentam a vida

Quanto mais observo a natureza, menos consigo compreender prosperidade como um fenômeno puramente individual. Uma floresta saudável não é formada simplesmente por árvores fortes. Ela depende da qualidade das relações entre solo, água, luz, microrganismos, plantas, animais e condições ambientais. Quando essas relações empobrecem, até organismos aparentemente robustos tornam-se vulneráveis.

Talvez nossas organizações não sejam tão diferentes.

Podemos investir durante anos em pessoas, produtos, processos e tecnologias e ainda assim permanecer frágeis se as relações entre essas partes estiverem deterioradas. Entre liderança e operação, estratégia e execução, empresa e mercado, conhecimento e prática, passado e futuro, sempre existe um espaço de conexão que pode favorecer ou impedir a circulação.

Essa perspectiva muda a própria ideia de cultivo. Cultivar deixa de significar simplesmente fazer alguma coisa crescer e passa a significar criar condições para que as relações necessárias ao crescimento possam existir.

É uma mudança sutil, mas profunda. Quem cultiva não controla o organismo. Observa suas condições, reconhece seus padrões, intervém com cuidado e procura favorecer aquilo que aumenta sua capacidade de continuar vivendo e aprendendo.

Também somos cultivados por aquilo que cultivamos

Existe uma consequência inevitável dessa maneira de pensar: se participamos de sistemas vivos, nunca estamos completamente fora daquilo que tentamos transformar. Ao entrar em uma organização, passamos a influenciá-la e somos influenciados por ela. Ao construir uma comunidade, nossas próprias ideias começam a mudar. Ao ensinar, reorganizamos aquilo que acreditávamos saber. Ao acompanhar alguém durante uma transformação, alguma coisa dessa experiência também permanece em nós.

Tenho percebido isso na construção da própria Árvore do Cultivo. Quanto mais observo organizações, histórias e pessoas através dessa lente, menos sinto que estou simplesmente desenvolvendo uma teoria. Em alguma medida, a própria teoria também está modificando minha forma de perceber o mundo. Cada encontro acrescenta uma nuance, cada conversa revela alguma coisa que eu ainda não havia considerado e cada experiência concreta obriga determinadas ideias a deixarem o terreno confortável da abstração.

Talvez ideias verdadeiramente vivas amadureçam assim. Não pela capacidade de permanecerem intactas, mas pela capacidade de continuar encontrando o mundo sem perder sua essência.

Aprender a perceber antes de explicar

Construímos uma civilização extraordinariamente competente em medir, analisar e explicar fenômenos, e isso nos permitiu avanços impressionantes. Ainda assim, medir nunca foi a única maneira de conhecer. Antes de muitos fenômenos serem compreendidos cientificamente, alguém precisou observá-los com atenção suficiente para perceber que havia ali um padrão.

A natureza não começou a funcionar quando desenvolvemos instrumentos capazes de medi-la. Aquilo que ainda não compreendemos continua acontecendo independentemente de nossa capacidade atual de explicação.

Existe uma postura que considero especialmente importante diante disso. Podemos preencher o desconhecido com superstição, transformando qualquer sensação em verdade, ou podemos preenchê-lo com arrogância, concluindo que aquilo que ainda não conseguimos explicar simplesmente não existe. Há uma terceira possibilidade, que me parece muito mais fértil: permanecer curioso, observar, formular hipóteses, comparar padrões, experimentar e manter abertas algumas perguntas.

É justamente essa postura que encontro na Biomimética e que desejo preservar dentro da Árvore do Cultivo. Olhar para a natureza sem romantizá-la, mas também sem reduzi-la àquilo que já sabemos medir. Reconhecer que sistemas vivos são profundamente complexos e que parte dessa complexidade talvez seja percebida muito antes de conseguirmos descrevê-la com precisão.

Talvez cultivar comece exatamente aí: recuperando nossa capacidade de atenção.

Quando entrarmos novamente em uma empresa, comunidade, reunião ou qualquer outro ambiente humano, talvez valha observar não apenas quem está presente, mas aquilo que está acontecendo entre as pessoas. O que circula com facilidade? O que parece interrompido? Onde há vitalidade? Onde há tensão? Que comportamentos aquele ambiente favorece? O que ele desperta em nós?

Quanto mais penso sobre essas imagens, mais me parece que a árvore é uma boa metáfora justamente porque nos impede de olhar apenas para aquilo que aparece. Para compreender sua copa, precisamos considerar o tronco. Para compreender o tronco, precisamos olhar para as raízes. Para compreender as raízes, precisamos conhecer o solo. E, quando finalmente observamos o solo, percebemos que a árvore nunca esteve sozinha.

Talvez nós também nunca tenhamos estado.

Continue o cultivo

A Árvore do Cultivo não pretende oferecer respostas prontas, mas ampliar nossa capacidade de perceber aquilo que estamos cultivando, em nós, nas relações e nas organizações das quais fazemos parte. Se esta reflexão encontrou alguma experiência da sua própria trajetória, se quiser, me escreva no Instagram contando o que ela despertou em você. É quando diferentes histórias, percepções e aprendizados começam a circular que uma ideia deixa de pertencer a alguém e passa a fazer parte de um cultivo coletivo.

E você, o que esta reflexão fez você perceber sobre aquilo que está cultivando hoje?

Se fizer sentido, compartilhe este artigo com alguém que também esteja vivendo esse processo. Algumas sementes só encontram seu verdadeiro significado quando começam a circular.

UMA RELAÇÃO, NÃO UMA NEWSLETTER

Receba uma nova leitura quando eu publicar.

Sem frequência artificial. Apenas quando houver algo que valha o seu tempo.

Ao se inscrever, você autoriza o envio das próximas Leituras. Você pode sair quando quiser.

Explorar todas as leituras →