Organizações Vivas
A semente: aquilo que insiste em nascer
No último artigo desta série, escrevi sobre o Despertar. Falei sobre a inconformidade como um ponto de partida, aquele momento em que alguma coisa começa a incomodar e já não conseguimos simplesmente seguir adiante como se não tivéssemos percebido.

No último artigo desta série, escrevi sobre o Despertar. Falei sobre a inconformidade como um ponto de partida, aquele momento em que alguma coisa começa a incomodar e já não conseguimos simplesmente seguir adiante como se não tivéssemos percebido.
Tenho pensado que o passo seguinte talvez seja ainda mais difícil de identificar. Porque entre perceber que alguma coisa precisa mudar e saber exatamente o que fazer existe um espaço enorme. É nesse espaço que, muitas vezes, nasce a semente.
Quando olho para a minha própria história, percebo que as coisas mais importantes que construí não começaram com um grande plano. Muito menos com a clareza que hoje consigo enxergar olhando para trás. Elas começaram pequenas, confusas e, algumas vezes, completamente diferentes daquilo que se tornariam depois.
A Involves, por exemplo, nasceu no quarto da minha casa. É fácil contar essa história hoje sabendo o que aconteceu depois. A empresa cresceu, chegou a 26 países, conquistou reconhecimentos importantes e passou a fazer parte da história do trade marketing brasileiro. Mas essa é a árvore vista depois de crescida.
Quando volto para o começo, a imagem é outra.
Éramos jovens tentando descobrir o que construir. Durante aproximadamente dois anos criamos cerca de dez produtos que não deram certo. Fazíamos projetos sob demanda, aprendíamos enquanto fazíamos e durante um período sequer conseguíamos tirar pró-labore. Não havia investimento externo, uma grande tese de mercado ou qualquer garantia de que aquilo daria certo.
Havia, porém, alguma coisa que nos fazia continuar.
Hoje percebo que a semente já estava lá, mesmo quando ainda não sabíamos reconhecer sua forma.
Talvez por isso eu esteja cada vez mais convencido de que confundimos a semente com a ideia. Uma ideia pode aparecer em uma reunião, em uma conversa ou depois de observar uma oportunidade de mercado. A semente me parece algo diferente. Ela costuma ter relação com a nossa história, com aquilo que experimentamos e, principalmente, com aquilo que passamos a acreditar depois dessas experiências.
Algumas sementes ficam adormecidas
O Gigante do PDV me ensinou muito sobre isso.
Durante os anos em que estive à frente da Involves, convivi com milhares de profissionais de trade marketing. Visitei operações, participei de eventos, conversei com executivos e, principalmente, tive muito contato com quem estava na ponta da execução. Quanto mais eu conhecia esse universo, mais uma coisa me incomodava: a distância entre a importância do promotor de vendas para o resultado e a forma como esse profissional muitas vezes era percebido pelas próprias organizações.
Eu via pessoas fundamentais para a execução sendo tratadas apenas como mão de obra operacional. Via conhecimento acumulado no campo sendo pouco ouvido. Via profissionais com histórias incríveis que, muitas vezes, não conseguiam enxergar a própria grandeza.
Aquilo me incomodava profundamente.
Mas o Gigante do PDV não nasceu naquele momento.
A semente ficou comigo por anos.
Quando finalmente encontrou espaço para germinar, percebi que não estava simplesmente criando um grupo, um evento ou um projeto. Havia uma causa por trás daquilo. O movimento nasceu de uma inconformidade que eu carregava havia muito tempo: profissionais tão importantes para o mercado não poderiam continuar sendo subestimados.
Talvez seja por isso que algumas coisas tenham uma força diferente quando começam. Elas não nasceram ontem, mesmo que o CNPJ, o nome, a marca ou o primeiro evento sejam recentes. Em alguns casos, estamos apenas dando forma a algo que já vinha crescendo silenciosamente dentro de nós.
A semente quase nunca revela a árvore inteira
A própria Árvore do Cultivo tem sido uma experiência interessante nesse sentido.
Ela também não apareceu pronta.
Não acordei um dia com um framework desenhado, os fundamentos definidos e uma metodologia organizada. Na verdade, quanto mais avanço nesse projeto, mais percebo que estou organizando aprendizados que começaram muito antes dele.
Quando saí da Involves, depois de dez anos como CEO, passei por um período em que precisei reaprender a olhar para o que estava construindo e, principalmente, para quem eu era sem aquela organização ocupando o centro da minha identidade profissional.
Em 2019 fui morar no sítio onde hoje existe o Espaço Cambirela. Em 2021 vivi uma Busca da Visão, passando quatro dias em Segualquia sem comida, água ou fala. Vieram depois outros projetos, outras experiências, o Gigante do PDV, novas conversas, acertos e erros. Em muitos momentos eu não conseguia enxergar qualquer conexão entre essas coisas.
Hoje começo a enxergar.
A Árvore do Cultivo talvez seja uma semente nova, mas o que existe dentro dela foi acumulado durante muitos anos. A experiência de construir uma empresa. Os erros que cometemos. A forma como a cultura surgiu. A importância das pessoas. Minha relação com a natureza. As experiências no Cambirela. A inconformidade que originou o Gigante. As conversas que tenho tido com empreendedores sobre propósito, posicionamento, crescimento e prosperidade.
As peças começam a se encontrar.
E isso tem mudado inclusive a forma como penso sobre empreendedorismo.
Durante muito tempo aprendi a procurar oportunidades. Qual mercado está crescendo? Qual problema vale a pena resolver? Onde existe demanda? Qual modelo pode escalar? Continuo acreditando que essas perguntas são importantes. Seria ingenuidade ignorá-las.
Mas hoje acrescentaria outra pergunta, talvez anterior a todas elas: o que existe em mim que merece ser cultivado?
Essa pergunta muda bastante coisa.
Porque nem toda oportunidade precisa ser nossa. Nem todo mercado que cresce precisa ser explorado por nós. Nem todo negócio potencialmente lucrativo precisa ocupar anos da nossa vida.
Às vezes passamos tanto tempo procurando a próxima grande ideia que deixamos de perceber uma pequena semente que carregamos há anos.
Talvez você já esteja carregando a sua
Uma das coisas mais bonitas em uma semente é que, olhando apenas para ela, dificilmente conseguimos imaginar a dimensão daquilo que pode nascer. Uma árvore enorme pode começar em algo que cabe na palma da mão.
Talvez com nossas ideias aconteça algo parecido.
A Involves que começou naquele quarto não parecia a empresa que um dia estaria presente em 26 países. A inquietação que eu sentia ao observar a realidade dos promotores de vendas não parecia um movimento que reuniria milhares de profissionais. E muitas das experiências que vivi nos últimos anos não pareciam estar conectadas à construção de uma teoria sobre organizações como organismos vivos.
Nós temos uma tendência natural de interpretar nossa história olhando para o que já floresceu. O desafio é aprender a reconhecer aquilo que ainda é pequeno.
Por isso, antes de pensar na próxima ideia, no próximo produto ou na próxima oportunidade, talvez valha fazer um exercício diferente.
Olhe para trás.
Quais assuntos continuam aparecendo na sua vida? Quais problemas você simplesmente não consegue ignorar? Que tipo de situação desperta em você uma vontade genuína de fazer alguma coisa? O que você viveu que mudou profundamente aquilo em que acredita?
Talvez exista alguma coisa ali.
Ainda sem nome. Ainda sem modelo de negócio. Talvez sem qualquer aparência de oportunidade.
Apenas uma semente.
No próximo artigo, quero avançar um pouco mais nessa reflexão. Porque uma semente carrega potencial, mas não cresce apenas por existir. Antes de aparecer acima da terra, ela faz um movimento que quase ninguém vê: cria raízes.
E talvez seja justamente debaixo da terra que começamos a entender por que algumas coisas que construímos conseguem permanecer em pé.
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