Organizações Vivas
As raízes: a árvore cresce para cima, mas é definida pelo que existe embaixo
Uma das coisas que mais tenho percebido nas conversas com empreendedores é que quase todos gostam de falar sobre os frutos. Falam sobre faturamento, clientes, equipe, produtos, crescimento e planos para os próximos anos.

Uma das coisas que mais tenho percebido nas conversas com empreendedores é que quase todos gostam de falar sobre os frutos. Falam sobre faturamento, clientes, equipe, produtos, crescimento e planos para os próximos anos. Quando o assunto é posicionamento, a conversa normalmente segue para marketing, redes sociais, autoridade ou diferenciação.
Tudo isso é importante, mas quase sempre estamos olhando apenas para a parte da árvore que aparece. Pouca gente pergunta sobre as raízes.
Talvez isso aconteça porque elas sejam invisíveis. Talvez porque falar sobre elas exija voltar para lugares que nem sempre são confortáveis. Mas, quanto mais aprofundo a teoria da Árvore do Cultivo, mais convicto fico de que uma organização só pode ser realmente compreendida quando entendemos aquilo que alimenta quem a construiu.
As raízes não são o passado
Tenho pensado muito sobre a diferença entre história e raiz. A história é aquilo que aconteceu. A raiz é aquilo que permaneceu depois.
Por isso, as raízes de um empreendedor não são apenas os acontecimentos da sua trajetória, mas as convicções que nasceram dessas experiências. É isso que me interessa quando conduzo uma entrevista para a construção do DNA de Posicionamento.
Não quero apenas saber onde a pessoa nasceu, onde estudou, quais empresas criou ou quais resultados alcançou. Quero compreender quais experiências fizeram com que ela passasse a enxergar o mundo da forma como enxerga hoje.
Quero entender o que ela viveu, o que a marcou, o que decidiu não repetir e o que passou a defender. Porque são essas experiências que continuam influenciando suas decisões, muitas vezes sem que ela perceba.
Quando comecei a olhar para a minha própria história dessa forma, passei a compreender melhor algumas características que sempre estiveram presentes na minha maneira de empreender.
As primeiras referências
Minha mãe sempre foi empreendedora. Vendia doces, criava alternativas e fazia acontecer com os recursos que tinha. Cresci observando alguém que não esperava que todas as condições estivessem prontas para começar. Ela começava e, durante o caminho, descobria como seguir.
Meu pai viveu uma trajetória diferente. Como funcionário público, sempre valorizou responsabilidade, estabilidade, compromisso e consistência.
Durante muito tempo, enxerguei esses dois caminhos como opostos. Hoje percebo que talvez eu carregue um pouco dos dois. De um lado, a disposição para criar e a coragem de começar. Do outro, a consciência de que construir alguma coisa exige constância, responsabilidade e compromisso com aquilo que foi iniciado.
Essas referências não apareceram em nenhum planejamento estratégico, mas sempre estiveram presentes na maneira como eu tomava decisões.
Elas eram raízes.
Uma experiência que se transformou em convicção
Outra raiz importante surgiu quando eu ainda era muito jovem e trabalhava em uma empresa. Sempre gostei de pensar em melhorias, sugerir caminhos e imaginar soluções. Em determinado momento, percebi que meu líder apresentava algumas das minhas ideias como se fossem dele.
Aquilo me incomodou profundamente. Não apenas pela falta de reconhecimento, mas porque senti que havia perdido o direito de contribuir.
Anos depois, quando fundei a Involves, percebi que aquela experiência havia deixado uma marca muito maior do que eu imaginava. Sem que eu tivesse consciência disso, ela havia se transformado em uma convicção.
Eu queria construir uma empresa onde as pessoas tivessem espaço para pensar. Onde uma boa ideia não dependesse do cargo de quem a apresentou. Onde alguém pudesse discordar, contribuir e participar genuinamente da construção.
Naquela época, eu ainda não chamava isso de cultura organizacional. Hoje compreendo que era uma raiz aparecendo na forma como eu liderava.
Essa descoberta me ajudou a perceber que muitas das escolhas que fazemos como empreendedores não surgem apenas da razão. Elas também são respostas às experiências que vivemos.
Convicções quase sempre carregam uma história
Quando alguém me diz que acredita profundamente na autonomia das pessoas, dificilmente essa convicção nasceu apenas da leitura de um livro de gestão. Quando alguém defende a transparência acima de tudo, normalmente existe alguma experiência por trás disso. Quando uma empresa se torna obcecada por atendimento, muitas vezes essa obsessão nasceu de uma frustração que seu fundador nunca mais quis repetir.
As raízes não são conceitos escolhidos para preencher uma apresentação institucional. São experiências transformadas em convicções.
Foi justamente essa percepção que mudou a forma como conduzo as entrevistas da Árvore do Cultivo. Antes, eu começava perguntando sobre a empresa. Hoje, começo perguntando sobre a pessoa.
Pergunto sobre infância, referências, decisões difíceis, fracassos, momentos de coragem, pessoas que marcaram a trajetória, situações que causaram dor e experiências que despertaram orgulho. Não faço isso por curiosidade. Faço porque aprendi que, quase sempre, as grandes decisões de um empreendedor são influenciadas por convicções que nasceram muito antes da empresa existir.
Raízes não podem ser copiadas
Talvez por isso eu tenha cada vez menos interesse em empresas que tentam copiar culturas organizacionais consideradas bem-sucedidas. É comum encontrar organizações reproduzindo valores, manifestos, rituais e discursos de outras empresas como se cultura pudesse ser importada.
Na minha visão, isso dificilmente funciona.
Podemos copiar os frutos de uma árvore. Podemos observar seus galhos, suas folhas e até reproduzir parte da sua aparência. Mas não conseguimos copiar suas raízes, porque elas nasceram de uma história específica, em uma terra específica, a partir das experiências de quem decidiu plantar.
É por isso que valores escritos sem conexão com a história do fundador costumam soar vazios. Eles podem ser bonitos, mas não sustentam decisões difíceis. Quando chega o momento de escolher entre conveniência e coerência, apenas aquilo que está profundamente enraizado consegue permanecer.
Uma organização pode declarar que valoriza pessoas, inovação, colaboração ou transparência. A questão mais importante, porém, é compreender de onde essa crença nasceu e como ela aparece nas escolhas reais da organização.
Sem essa conexão, o valor é apenas uma palavra.
As mesmas raízes em árvores diferentes
Quando olho para a Involves, para o Gigante do PDV e agora para a Árvore do Cultivo, percebo que os três projetos carregam raízes muito parecidas.
A Involves não cresceu apenas porque encontrou um mercado promissor. O Gigante do PDV não existe apenas porque o trade marketing precisava de um movimento. E a Árvore do Cultivo não nasceu simplesmente porque decidi desenvolver uma metodologia.
Em todos eles existe uma crença muito profunda no potencial das pessoas. Existe a convicção de que gente cresce quando é valorizada, ouvida e desafiada. Existe também a crença de que organizações podem produzir prosperidade sem abrir mão de coerência, desenvolvimento humano e contribuição para o ambiente em que estão inseridas.
Os projetos são diferentes, mas as raízes parecem ser as mesmas.
Quanto mais olho para trás, menos enxergo acontecimentos isolados. Começo a perceber um sistema. Experiências que, durante muito tempo, pareciam desconectadas estavam, na verdade, alimentando a mesma árvore.
Antes de definir seu posicionamento, descubra suas raízes
Talvez aconteça o mesmo com você.
É possível que aquilo que você está construindo hoje tenha começado muito antes do nome da empresa, do produto ou do primeiro cliente. Talvez algumas das suas maiores convicções tenham nascido em experiências que você ainda nunca relacionou à forma como empreende.
Por isso, antes de pensar no posicionamento da sua empresa, talvez seja necessário fazer uma pergunta mais profunda: quais experiências moldaram as convicções que orientam suas decisões até hoje?
Não procure respostas bonitas. Procure respostas verdadeiras.
Pense nas situações que mudaram sua forma de enxergar as pessoas, o trabalho, a liderança, o dinheiro, o crescimento e a prosperidade. Lembre-se do que você viveu, do que decidiu não aceitar e daquilo que passou a acreditar depois de cada experiência.
Talvez seja ali que esteja a origem da cultura que você deseja construir.
Afinal, as raízes quase nunca aparecem para quem observa uma árvore de fora. Ainda assim, são elas que sustentam tudo o que um dia será visto.
E você?
Qual experiência da sua história acabou se transformando em uma convicção que orienta suas decisões até hoje?
Se quiser compartilhar sua reflexão, me escreva no Instagram. Uma das ideias centrais da Árvore do Cultivo é que aprendemos não apenas com nossas próprias raízes, mas também com as histórias de quem caminha ao nosso lado.
UMA RELAÇÃO, NÃO UMA NEWSLETTER
Receba uma nova leitura quando eu publicar.
Sem frequência artificial. Apenas quando houver algo que valha o seu tempo.


