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Rodrigo LaminBiomimética aplicada aos negócios

Organizações Vivas

O despertar

Toda transformação começa com uma inconformidade

Copa de uma floresta vista de baixo

Toda transformação começa com uma inconformidade

Tenho pensado muito sobre o que realmente dá início a uma transformação.

Durante muito tempo, eu poderia ter respondido que tudo começa com uma ideia. Uma boa ideia, uma oportunidade percebida, um problema que merece ser resolvido ou um sonho que alguém decide perseguir.

Hoje penso diferente.

Antes da ideia, existe alguma coisa. Antes da Semente, existe o Despertar.

O Despertar acontece quando percebemos que aquilo que existe já não é suficiente. Não significa necessariamente que esteja tudo errado. Às vezes, inclusive, as coisas parecem funcionar normalmente. O mercado segue sua dinâmica, as empresas continuam operando e as pessoas se acostumam com determinadas situações.

Até que alguém deixa de considerar aquilo normal.

É aí que nasce a inconformidade.

Quando alguma coisa deixa de parecer normal

Existe uma diferença importante entre insatisfação e inconformidade.

A insatisfação muitas vezes nasce do desejo de escapar de alguma coisa. A inconformidade que me interessa nasce do desejo de transformar alguma coisa.

Ela não precisa carregar revolta. Pode nascer da observação, da empatia, da curiosidade ou da percepção de que existe uma realidade possível diferente daquela que aprendemos a aceitar.

Foi exatamente assim que nasceu o Gigante do PDV.

Durante muitos anos trabalhando com trade marketing, convivendo com empresas, executivos, líderes e principalmente com profissionais que estavam diariamente nos pontos de venda, uma coisa começou a me incomodar profundamente.

Eu percebia que muitos promotores de vendas eram subestimados.

Profissionais fundamentais para a execução das estratégias das empresas, responsáveis por aquilo que efetivamente acontece diante do consumidor, muitas vezes eram tratados apenas como a última ponta de uma operação. Recebiam pouco conhecimento, tinham poucas oportunidades de desenvolvimento e raramente eram reconhecidos na mesma proporção da importância que tinham para o negócio.

Quanto mais eu observava, menos conseguia considerar aquilo normal. Essa foi a inconformidade.

Eu ainda não tinha todas as respostas. Não existia uma estrutura pronta, uma comunidade formada ou um movimento desenhado. Existia primeiro uma convicção crescente de que aqueles profissionais poderiam ter acesso a mais conhecimento, mais valorização e, como consequência, mais oportunidades de prosperidade.

A inconformidade despertou alguma coisa em mim.

E desse Despertar nasceu uma Semente: o Gigante do PDV.

Antes da Semente existe uma pergunta

Essa experiência me ajudou a compreender algo que hoje considero importante dentro da teoria da Árvore do Cultivo.

Normalmente contamos a história de um projeto a partir do momento em que ele ganhou nome. Falamos da fundação da empresa, do lançamento de um produto, da criação de uma metodologia ou do início de um movimento.

Mas a verdadeira origem pode estar muito antes.

Antes do Gigante do PDV existir, existia uma pergunta.

Por que profissionais tão importantes para o resultado das empresas ainda são tão pouco valorizados?

Essa pergunta começou a reorganizar meu olhar.

E talvez seja justamente isso que uma boa inconformidade faça conosco. Ela não entrega imediatamente uma solução. Ela muda aquilo que conseguimos enxergar.

Depois que enxergamos, fica difícil simplesmente voltar ao estado anterior.

O Despertar precede a criação

Tenho percebido que muitas histórias de empreendedorismo são contadas a partir da solução. Gostamos de identificar o momento em que alguém teve uma grande ideia.

Mas talvez as grandes ideias sejam apenas a parte visível de um processo muito mais profundo.

Por que aquela pessoa percebeu aquele problema enquanto tantas outras conviviam normalmente com ele? Que experiências desenvolveram sua sensibilidade para enxergar aquilo? Por que determinado incômodo se tornou impossível de ignorar?

Isso me interessa profundamente na Árvore do Cultivo.

Porque talvez o início de uma organização, de um movimento ou de uma transformação não esteja no dia em que algo foi criado.

A Semente representa aquilo que decidimos cultivar.

O Despertar explica por que sentimos necessidade de plantá-la.

Nem todo Despertar precisa virar uma empresa

O Despertar também não pertence apenas ao empreendedorismo.

Ele pode acontecer dentro de uma organização que existe há décadas. Pode surgir em uma liderança que percebe que sua forma de conduzir pessoas já não funciona. Em um profissional que começa a questionar o sentido do próprio trabalho. Em uma equipe que percebe que os processos cresceram, mas as relações enfraqueceram. Em uma empresa que prosperou financeiramente, mas se afastou das razões que um dia justificaram sua existência.

O Despertar é o momento da percepção.

Ainda não existe necessariamente uma resposta.

E talvez exista sabedoria em não tentar transformar todo incômodo imediatamente em solução.

Entre reconhecer que alguma coisa precisa mudar e compreender o que precisa ser feito existe um espaço importante de investigação. É nesse espaço que surgem perguntas, conversas, experiências, erros, encontros e descobertas.

Antes de perguntar “o que vamos fazer?”, talvez seja necessário perguntar:

O que estamos começando a enxergar que antes não conseguíamos ver?

Organizações também podem adormecer

Uma árvore responde continuamente ao ambiente. Luz, água, nutrientes, temperatura e as relações estabelecidas no ecossistema influenciam seu desenvolvimento.

Organizações também precisam desenvolver essa sensibilidade.

O problema é que o sucesso pode, paradoxalmente, diminuir nossa capacidade de perceber.

Quando determinados modelos funcionam durante muito tempo, começamos a tratá-los como verdades. Processos viram dogmas. Práticas antigas continuam existindo porque “sempre fizemos assim”. Bons resultados diminuem nossa disposição para fazer perguntas difíceis.

É possível continuar colhendo frutos enquanto alguma coisa começa a enfraquecer nas raízes.

Por isso, dentro da Árvore do Cultivo, o Despertar não precisa acontecer apenas uma vez.

Uma organização viva precisa ser capaz de despertar novamente.

Precisa conservar a capacidade de questionar suas próprias certezas, observar o ambiente, escutar pessoas, reconhecer sinais e admitir que aquilo que funcionou até aqui talvez não seja suficiente para sustentar o próximo ciclo.

O cultivador começa pela observação

Existe uma razão para o Despertar vir antes da Semente.

Se começarmos diretamente pela solução, corremos o risco de plantar respostas para perguntas que nunca fizemos.

Um cultivador experiente não olha para uma árvore e imediatamente começa a podá-la, adubá-la ou regá-la. Primeiro observa. Procura entender o ambiente, percebe as folhas, investiga o solo, observa o tronco e tenta compreender os sinais daquele organismo antes de interferir.

Essa postura exige algo que considero fundamental: humildade.

Humildade para admitir que ainda não sabemos.

Humildade para reconhecer que outras pessoas podem estar enxergando aquilo que não conseguimos enxergar.

E humildade para aceitar que aquilo que inicialmente chamamos de problema talvez seja apenas a manifestação visível de algo muito mais profundo.

Qual inconformidade você decidiu não ignorar?

O Gigante do PDV me ensinou que uma Semente pode começar muito antes de sabermos exatamente o que estamos plantando.

Primeiro veio a observação. Depois, o incômodo. O incômodo se transformou em inconformidade. A inconformidade despertou uma convicção. E aquela convicção começou a ganhar forma.

Hoje consigo olhar para trás e reconhecer essa sequência com muito mais clareza.

Talvez existam sementes assim ao nosso redor neste exato momento.

Elas podem estar escondidas em situações que nos incomodam, perguntas que continuam retornando ou realidades que todo mundo parece ter aprendido a aceitar, menos nós.

Na Árvore do Cultivo, o Despertar começa justamente aí.

Não quando encontramos a resposta.

Mas quando decidimos não ignorar mais aquilo que passamos a enxergar.

Por isso, quero terminar este texto deixando uma pergunta para quem está cultivando essa teoria comigo:

Qual é a inconformidade que você enxerga hoje e que talvez esteja tentando lhe mostrar que existe uma nova Semente esperando para ser cultivada?

Se quiser compartilhar sua reflexão, me escreva no Instagram. Talvez, ao colocar essa inconformidade em palavras, você ajude a adubar não apenas o seu solo, mas também o de outros Cultivadores.

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