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Rodrigo LaminBiomimética aplicada aos negócios

Organizações Vivas

O tronco: onde as raízes se transformam em identidade

Existe um momento no crescimento de uma árvore em que aquilo que estava acontecendo debaixo da terra começa, enfim, a se tornar visível. Até então, quase tudo parecia silêncio: a semente rompendo, as raízes procurando espaço, o solo oferecendo ou negando nutrientes.

Textura de casca de árvore antiga

Existe um momento no crescimento de uma árvore em que aquilo que estava acontecendo debaixo da terra começa, enfim, a se tornar visível. Até então, quase tudo parecia silêncio: a semente rompendo, as raízes procurando espaço, o solo oferecendo ou negando nutrientes. Mas chega uma hora em que a árvore precisa aparecer. E quando aparece, ela não revela apenas que está viva. Ela revela como conseguiu sobreviver até ali.

É isso que torna o tronco tão interessante.

O tronco carrega, à vista de todos, uma história que começou longe dos olhos. Sua espessura, suas cicatrizes, suas curvas e até sua resistência aos ventos são consequências de processos anteriores. Ele não inventa a árvore; ele manifesta a árvore. Talvez aconteça exatamente o mesmo conosco, com nossas carreiras e com as organizações que construímos. Em algum momento, aquilo que acreditamos, aquilo que vivemos e aquilo que aprendemos começa a ganhar forma concreta no mundo.

Na Árvore do Cultivo, é aqui que as raízes começam a virar identidade.

Quando aquilo que está dentro começa a aparecer fora

Nos artigos anteriores, fomos descendo cada vez mais fundo. O despertar nos convidou a perceber aquilo que já não conseguíamos ignorar. A semente trouxe a ideia de uma potência que ainda não havia se realizado. As raízes nos levaram à origem, às experiências, às marcas e às convicções que ajudam a explicar quem nos tornamos. O solo nos fez olhar para o ambiente que favorece ou dificulta o crescimento.

O tronco representa um movimento diferente. Ele marca a passagem do invisível para o visível.

Quando penso em identidade, portanto, não estou falando apenas de marca, logotipo, slogan ou posicionamento. Esses elementos podem comunicar uma identidade, mas não conseguem criá-la sozinhos. A identidade verdadeira aparece nas escolhas repetidas, nos comportamentos que se tornam padrão, naquilo que não negociamos com facilidade e na forma como reagimos quando somos colocados sob pressão.

Uma empresa pode alterar seus produtos, trocar de endereço, contratar novas pessoas, entrar em outros mercados e incorporar tecnologias diferentes. Mesmo assim, alguma coisa pode permanecer reconhecível. Pode ser a maneira como trata clientes, a forma como desenvolve pessoas, o nível de autonomia que concede às equipes, o tipo de problema que escolhe resolver ou a relação que mantém com a sociedade.

É esse conjunto que começa a formar o tronco.

Talvez por isso tantas discussões sobre posicionamento comecem no lugar errado. Perguntamos qual frase deveria estar no site antes de investigar quais convicções sustentam aquela frase. Tentamos definir uma promessa de marca antes de compreender se a organização está preparada para honrá-la.

Posicionamento consistente não começa na comunicação. Começa na identidade.

O tronco não inventa as raízes

O mercado exerce uma enorme força sobre a maneira como empresas e profissionais constroem sua identidade. Observamos aquilo que está funcionando, estudamos quem está crescendo, acompanhamos tendências e absorvemos referências. Isso é natural e, em muitos casos, necessário.

O problema aparece quando começamos a construir uma identidade por imitação.

A empresa passa a falar sobre inovação porque inovação está em alta. Adota a palavra propósito porque o mercado passou a valorizá-la. Coloca pessoas no centro da comunicação porque percebeu que esse discurso funciona. Fala sobre autonomia, transformação, impacto ou comunidade, mas nenhuma dessas palavras possui ligação clara com a história da organização ou com a forma como ela realmente opera.

É como tentar construir um tronco que não pertence àquelas raízes.

A incoerência talvez demore a aparecer nos indicadores, mas costuma ser percebida rapidamente pelas pessoas. A marca afirma que valoriza proximidade, enquanto seus processos criam distância. Declara autonomia, mas concentra todas as decisões. Celebra inovação, mas pune o erro. Afirma que pessoas são fundamentais, mas trata talentos como peças facilmente substituíveis.

Nesse momento, o problema não está apenas na comunicação. Existe uma ruptura entre identidade e comportamento.

Coerência não significa perfeição. Pessoas e organizações são contraditórias, mudam de opinião, erram e amadurecem. O ponto está em possuir clareza suficiente sobre quem desejamos ser para perceber quando estamos nos afastando disso.

Uma identidade saudável não elimina contradições. Ela nos ajuda a reconhecê-las.

Minha própria construção

Quando olho para minha trajetória empreendedora, consigo enxergar esse processo com muito mais clareza hoje do que enquanto estava vivendo tudo aquilo.

A Involves não nasceu com um produto vencedor perfeitamente definido. Antes de encontrarmos um caminho mais claro, construímos diferentes soluções, erramos, tentamos coisas que não funcionaram e atravessamos períodos bastante difíceis. Houve momentos sem pró-labore, incerteza financeira e inúmeras razões para acreditar que talvez aquela história não fosse avançar.

Na época, eu não falava sobre raízes, solo ou tronco. A teoria da Árvore do Cultivo ainda não existia. Mas, olhando em retrospectiva, percebo que enquanto buscávamos um produto, algo mais profundo estava sendo construído.

Estávamos formando identidade.

Algumas experiências da minha própria história já carregavam convicções fortes sobre liderança, trabalho, criatividade e ambiente. Eu sabia, por exemplo, que não queria simplesmente reproduzir determinados modelos de empresa que havia conhecido anteriormente. Havia em mim uma inquietação sobre a forma como organizações tratavam pessoas, distribuíam responsabilidades e construíam relações.

Essas convicções começaram, pouco a pouco, a entrar na empresa.

Elas apareceram na preocupação com cultura, na proximidade com clientes, na forma como tentávamos desenvolver pessoas, na disposição para experimentar e na crença de que era possível construir uma empresa relevante sem abandonar certos princípios.

Nada disso estava completamente pronto. Na verdade, boa parte foi sendo descoberta durante o próprio caminho. Mas existia uma direção.

E existe algo fascinante quando uma organização começa a desenvolver identidade: aquilo que inicialmente estava apenas na cabeça ou no comportamento dos fundadores começa a se espalhar. Outras pessoas incorporam hábitos, histórias passam a circular, determinadas atitudes são valorizadas, algumas decisões causam orgulho enquanto outras produzem desconforto.

É quando a empresa começa a adquirir memória.

O tronco começa a engrossar.

Identidade é aquilo que aparece nas escolhas

Durante décadas, empresas foram incentivadas a escrever missão, visão e valores. Em muitos casos, o exercício produziu declarações bonitas, cuidadosamente diagramadas e colocadas em paredes ou apresentações institucionais.

O problema nunca esteve nas palavras. Esteve na distância entre as palavras e as escolhas.

Quase qualquer empresa pode afirmar que valoriza integridade, excelência, pessoas, inovação ou clientes. A questão interessante começa quando a organização precisa tomar uma decisão que coloca esses valores em conflito com algum ganho imediato.

É relativamente simples dizer que pessoas importam enquanto a empresa cresce e as margens estão confortáveis. A verdadeira interpretação dessa crença aparece durante uma crise. É fácil defender qualidade quando existe tempo disponível. A convicção é testada quando cumprir o padrão significa atrasar uma entrega. Também é fácil falar sobre ética quando agir corretamente não produz nenhum custo relevante.

Por isso, se quisermos compreender o tronco de uma organização, talvez devamos observar menos suas apresentações institucionais e mais suas decisões difíceis.

As escolhas revelam identidade porque mostram aquilo que estamos realmente dispostos a proteger.

Crescer também pode nos afastar de quem somos

Existe um paradoxo importante no crescimento.

Quase todas as organizações desejam crescer, mas poucas percebem que o próprio crescimento pode colocar sua identidade em risco.

À medida que uma empresa conquista mais clientes, contrata mais pessoas, entra em novos mercados e desenvolve novos produtos, a complexidade aumenta. Aquilo que antes era resolvido por uma conversa passa a exigir processos. A proximidade espontânea precisa dar lugar a mecanismos de comunicação. A autonomia precisa conviver com governança. A velocidade precisa aprender a respeitar estrutura.

Esse movimento não é necessariamente ruim. Ele faz parte da maturidade.

O risco aparece quando, em nome do crescimento, a organização começa a abandonar silenciosamente aquilo que a tornou especial.

A proximidade vira burocracia. A autonomia vira controle. A criatividade vira procedimento. A coragem vira aversão ao risco. E a cultura, que antes era vivida, transforma-se em um conjunto de slides explicando como as pessoas deveriam agir.

É justamente aí que o tronco mostra sua função.

Ele não existe apenas para contar quem a árvore foi. Ele precisa sustentar aquilo que a árvore está se tornando.

Quanto mais galhos surgem, mais forte o tronco precisa ser. Uma árvore que cresce muito acima daquilo que sua estrutura consegue suportar torna-se vulnerável aos ventos. Organizações também podem crescer além da capacidade de sustentar a própria expansão.

Por isso, talvez uma pergunta estratégica pouco explorada seja esta: o que precisa ficar mais forte em nossa identidade para suportar o crescimento que estamos buscando?

O tronco como coerência

Quanto mais desenvolvo a Árvore do Cultivo, mais percebo a importância da coerência como um dos fundamentos centrais de uma organização saudável.

Coerência é a relação entre aquilo que acreditamos e aquilo que praticamos. É o grau de alinhamento entre discurso e comportamento, promessa e entrega, cultura declarada e experiência vivida.

Isso não significa eliminar completamente a distância entre intenção e prática. Sempre haverá alguma diferença entre aquilo que desejamos ser e aquilo que conseguimos ser em determinado momento.

O que muda é a consciência dessa distância.

Uma organização coerente consegue admitir que ainda não pratica tudo aquilo que acredita. Consegue reconhecer contradições sem precisar mascará-las. Em vez de transformar valores em peças publicitárias, transforma-os em direção.

Esse detalhe é importante porque identidade não deve ser compreendida como algo rígido.

O tronco de uma árvore continua crescendo.

Ele engrossa, adapta-se ao ambiente, registra períodos difíceis e carrega cicatrizes. Alguns acontecimentos deixam marcas permanentes. Outros apenas modificam sua forma.

Com pessoas e empresas acontece o mesmo.

Identidade não é uma fotografia congelada do passado. É uma estrutura viva que preserva essência enquanto aprende a lidar com novas circunstâncias.

Os anéis que contam uma história

Existe uma imagem que sempre me chama atenção quando penso em troncos. Quando uma árvore é cortada transversalmente, seus anéis revelam parte de sua história. É possível observar períodos de crescimento, alterações ambientais e diferentes condições enfrentadas ao longo do tempo.

Aquilo que vemos naquele pedaço de madeira é, na verdade, tempo transformado em estrutura.

Pessoas também carregam seus próprios anéis.

Organizações também.

Clientes que mudaram nossa forma de pensar, crises que exigiram novas capacidades, erros que nos fizeram rever certezas, pessoas que passaram pela nossa história, conquistas que ampliaram nossa confiança e fracassos que nos obrigaram a amadurecer. Tudo isso vai sendo incorporado.

Talvez seja justamente por isso que tenho cada vez menos interesse em começar uma conversa estratégica perguntando apenas onde alguém quer chegar.

Antes disso, quero compreender de onde essa pessoa veio.

Quero entender quais experiências a formaram, quais acontecimentos mudaram sua maneira de enxergar trabalho, liderança, dinheiro, sucesso, fracasso, prosperidade e relacionamento com outras pessoas.

Não porque o passado determine o futuro, mas porque frequentemente ele contém pistas valiosas sobre aquilo que somos capazes de sustentar de maneira autêntica.

Em muitos casos, a tarefa não é inventar uma identidade nova.

É reconhecer aquela que já está sendo construída há anos.

Uma empresa precisa ser reconhecível

Quando entramos em uma floresta, duas árvores da mesma espécie dificilmente terão exatamente a mesma forma. O tronco possui inclinações diferentes, cicatrizes próprias, espessuras distintas e uma relação particular com o espaço ao redor.

A história altera a forma.

Empresas também deveriam carregar alguma singularidade dessa natureza.

Quando todas as organizações de um setor começam a utilizar as mesmas palavras, apresentar as mesmas promessas e repetir os mesmos conceitos, talvez não estejamos diante de um problema de comunicação. Talvez exista uma dificuldade anterior: ninguém está conseguindo traduzir sua própria história em identidade.

Ser diferente apenas para chamar atenção é artificial.

Ser reconhecível porque existe uma maneira particular de interpretar o mundo é outra coisa.

A primeira tentativa busca diferenciação. A segunda revela essência.

E talvez uma das perguntas mais poderosas para qualquer processo de posicionamento seja justamente esta: o que existe de verdadeiro em nossa história que ainda não aprendemos a tornar visível?

Do tronco nascerão os galhos

A jornada que estamos construindo ao longo desta série segue a própria lógica da árvore.

Primeiro percebemos que alguma coisa precisava mudar. Depois encontramos uma semente. Investigamos as raízes, observamos o solo e agora chegamos ao tronco.

Até aqui, estivemos buscando compreender aquilo que sustenta.

A partir daqui, começaremos a observar aquilo que se expande.

Os galhos representam as escolhas de crescimento. Produtos, mercados, projetos, iniciativas, estratégias, parcerias e possibilidades começam a surgir a partir da estrutura construída até aqui.

E existe uma diferença importante entre possuir possibilidades e saber quais delas devem ser cultivadas.

Uma árvore poderia tentar crescer em todas as direções ao mesmo tempo, mas seus recursos são limitados. Toda expansão exige energia. Toda escolha de crescimento implica algum tipo de renúncia.

Talvez seja justamente por isso que compreender o tronco antes de discutir os galhos seja tão importante.

Quando sabemos quem somos, fica mais fácil decidir onde vale a pena crescer.

Uma pergunta para cultivar

Existe um exercício que considero particularmente interessante para encerrar esta reflexão.

Imagine que retirássemos, por alguns instantes, tudo aquilo que costuma servir como referência externa para definir quem somos: cargo, empresa, produto, marca, reconhecimento, audiência, dinheiro, status e reputação.

O que ainda permaneceria?

Quais convicções continuariam orientando suas decisões? Que maneira de trabalhar você seguiria defendendo? Que tipo de relação com as pessoas você não estaria disposto a abandonar? O que, mesmo diante de uma oportunidade aparentemente extraordinária, você consideraria inegociável?

Talvez seja justamente nessas respostas que uma parte importante do seu tronco esteja escondida.

Porque identidade não é aquilo que utilizamos para convencer os outros sobre quem somos. É aquilo que permanece quando já não precisamos convencer ninguém.

Na Árvore do Cultivo, gosto de resumir essa ideia desta forma: o tronco é a parte visível de tudo aquilo que a árvore decidiu não abandonar de suas raízes.

E agora eu gostaria de levar essa reflexão para você. Se a sua vida, sua carreira ou sua empresa fosse uma árvore, o que hoje forma o seu tronco? Qual convicção, característica ou valor você considera inegociável naquilo que está construindo?

Se quiser compartilhar sua reflexão, me escreva no Instagram. Talvez, ao tentar responder, você descubra que algumas das coisas que procura para o futuro já estavam crescendo dentro da sua própria história há muito tempo.

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