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Rodrigo LaminBiomimética aplicada aos negócios

Organizações Vivas

Toda árvore conta uma história sobre o lugar onde foi plantada

Ao longo da minha trajetória como empreendedor, participei de centenas de conversas com fundadores, líderes e profissionais que buscavam crescer. As histórias eram diferentes, os mercados mudavam, os desafios variavam, mas havia uma pergunta que sempre aparecia, ainda que nem sempre fosse formulada…

Raízes expostas no chão da floresta
Existe uma pergunta que fazemos pouco.

Ao longo da minha trajetória como empreendedor, participei de centenas de conversas com fundadores, líderes e profissionais que buscavam crescer. As histórias eram diferentes, os mercados mudavam, os desafios variavam, mas havia uma pergunta que sempre aparecia, ainda que nem sempre fosse formulada da mesma maneira: por que algumas pessoas conseguem florescer enquanto outras, igualmente talentosas e dedicadas, parecem passar a vida inteira lutando para alcançar resultados que nunca chegam?

Durante muitos anos, procurei responder a essa pergunta olhando apenas para as pessoas. Acreditava que a diferença estivesse na capacidade de trabalhar mais, aprender mais rápido ou tomar decisões melhores. Era uma explicação lógica e, de certa forma, confortável. Afinal, ela colocava tudo sob nosso controle.

Com o tempo, porém, comecei a perceber que essa visão era incompleta.

Se o crescimento dependesse apenas do esforço individual, bastaria encontrar pessoas talentosas para garantir equipes extraordinárias. Bastaria contratar profissionais competentes para construir empresas saudáveis. Bastaria ter uma boa ideia para criar um negócio próspero.

A realidade nunca confirmou essa teoria.

Foi curioso perceber que a resposta começou a aparecer não em uma sala de reunião, nem em um livro de administração, mas na observação da natureza. Quanto mais tempo eu passava olhando para as árvores, mais entendia que nenhuma delas poderia ser compreendida isoladamente. A árvore sempre fazia parte de um sistema maior. Sua saúde dependia da qualidade da terra, da disponibilidade de água, da luz que recebia, das espécies que cresciam ao redor e das relações invisíveis que estabelecia com todo o ecossistema.

Foi então que compreendi algo que mudou definitivamente a forma como passei a enxergar pessoas e organizações: antes de analisar a árvore, é preciso compreender o solo.

O ambiente também participa dos resultados

Quando pensamos em desenvolvimento, normalmente voltamos nossa atenção para aquilo que pode ser ensinado. Investimos em cursos, treinamentos, metodologias, processos e ferramentas. Tudo isso tem valor, e seria um erro afirmar o contrário. O problema surge quando imaginamos que essas iniciativas, sozinhas, são suficientes para transformar uma realidade.

Uma semente saudável continua sendo uma semente saudável, mas isso não significa que conseguirá crescer em qualquer lugar.

Essa lógica parece óbvia quando observamos a natureza, mas costuma ser ignorada dentro das organizações. Muitas empresas contratam excelentes profissionais e, pouco tempo depois, concluem que eles não entregaram o que prometiam. Outras investem em programas de liderança, mudam processos, revisam indicadores e, mesmo assim, continuam enfrentando os mesmos problemas de engajamento, colaboração ou inovação.

Nem sempre a dificuldade está nas pessoas.

Em muitos casos, ela está no ambiente onde essas pessoas tentam realizar o seu trabalho todos os dias.

Passei a chamar esse ambiente de solo porque ele exerce uma influência silenciosa, mas constante. Assim como a terra fornece nutrientes para uma árvore, o ambiente alimenta comportamentos, fortalece convicções e estabelece aquilo que será considerado normal dentro de uma organização. Um solo fértil favorece confiança, autonomia, curiosidade e aprendizado. Um solo empobrecido alimenta medo, competição excessiva, desconfiança e conformismo.

O mais interessante é que raramente percebemos essa transformação enquanto ela acontece. Assim como ninguém nota uma árvore crescer de um dia para o outro, a cultura também se forma de maneira lenta, quase imperceptível. Ela nasce das pequenas decisões repetidas diariamente, das conversas informais, da maneira como um líder reage diante de um erro, da forma como os conflitos são tratados e das histórias que continuam sendo contadas mesmo depois que as reuniões terminam.

É por isso que o solo costuma permanecer invisível. Estamos acostumados a observar apenas aquilo que aparece na superfície.

🌱 Nota de CultivoA cultura de uma organização não é definida pelo que ela declara acreditar, mas pelos comportamentos que ela cultiva todos os dias.

A maior mudança da minha vida começou com uma mudança de ambiente

Existe um momento da minha história que hoje faz muito mais sentido do que fazia quando aconteceu.

Em 2019, encerrei um ciclo extremamente importante da minha vida ao concluir minha trajetória na Involves. Durante dez anos, vivi intensamente a construção da empresa. Foram anos de crescimento acelerado, desafios constantes, decisões difíceis, viagens, reuniões e uma rotina que exigia muita energia. Quando esse capítulo terminou, tomei uma decisão que, na época, parecia apenas uma escolha pessoal: mudei-me para um sítio.

Se alguém tivesse me perguntado naquele momento por que eu estava fazendo aquilo, provavelmente eu responderia que buscava uma vida mais tranquila. Era verdade, mas essa resposta estava longe de explicar tudo o que aconteceria depois.

Com o passar do tempo, percebi que eu não havia mudado apenas de endereço. Eu havia mudado o ambiente onde minha forma de pensar seria cultivada.

Passei a caminhar diariamente entre árvores, observar o ritmo das estações, acompanhar o crescimento de plantas que não obedeciam à ansiedade humana e conviver com um silêncio que, no início, parecia estranho. Aos poucos, aquele ambiente começou a fazer perguntas que eu nunca havia feito quando vivia cercado pela velocidade.

Foi ali que compreendi que a natureza nunca separa crescimento de tempo. Ela não produz frutos antes de fortalecer as raízes, não acelera processos para atender expectativas e não confunde movimento com evolução.

Muitas das ideias que hoje formam a Árvore do Cultivo nasceram nesse período. Não porque eu tenha encontrado uma grande inspiração em um único dia, mas porque o ambiente passou a favorecer um tipo de reflexão que antes não encontrava espaço. A natureza deixou de ser apenas um cenário bonito e passou a se tornar uma professora silenciosa.

Hoje consigo olhar para trás e afirmar que a Árvore do Cultivo também é fruto do solo onde ela foi concebida.

🌱 Nota de CultivoExistem ambientes que drenam nossa energia e existem ambientes que ampliam nossa capacidade de enxergar. Saber reconhecer essa diferença é uma das decisões mais importantes que um empreendedor pode tomar.

O erro de tentar resolver apenas o que aparece

Talvez um dos maiores aprendizados que a natureza tenha me oferecido seja a ordem em que ela resolve os problemas.

Quando uma árvore deixa de produzir frutos, ninguém com experiência começa pintando as folhas de verde. O agricultor observa a terra, verifica a umidade, procura sinais nas raízes, entende o clima e somente depois decide qual intervenção faz sentido.

Nós, entretanto, costumamos inverter essa lógica.

Quando uma equipe perde desempenho, pensamos imediatamente em trocar pessoas. Quando uma empresa deixa de inovar, buscamos uma nova metodologia. Quando um negócio desacelera, imaginamos que a solução esteja em uma estratégia diferente.

Essas iniciativas podem até produzir algum resultado no curto prazo, mas dificilmente serão sustentáveis se o ambiente continuar reproduzindo exatamente os mesmos padrões que deram origem ao problema.

Essa percepção passou a influenciar profundamente a forma como conduzo os projetos de Advisory. Antes de discutir posicionamento, crescimento, vendas ou estratégia, procuro compreender o ambiente em que aquela organização está inserida. Quero entender como as pessoas se relacionam, quais comportamentos são incentivados, quais histórias moldaram aquela cultura e quais convicções orientam as decisões do fundador.

Em outras palavras, antes de olhar para os frutos, procuro colocar as mãos na terra.

Foi justamente dessa prática que nasceu uma das premissas centrais da Árvore do Cultivo: organizações não são máquinas que precisam apenas de ajustes técnicos. Elas são organismos vivos. E organismos vivos respondem ao ambiente onde crescem.

O solo é uma responsabilidade de quem lidera

Durante muito tempo, associei liderança à capacidade de desenvolver pessoas. Ainda continuo acreditando que esse seja um papel importante, mas hoje penso que existe uma responsabilidade ainda maior.

Liderar é cultivar o ambiente onde outras pessoas terão a oportunidade de crescer.

Isso significa construir relações de confiança, criar espaços onde perguntas sejam bem-vindas, permitir que erros honestos se transformem em aprendizado e proteger uma cultura coerente com os valores que a organização deseja viver. Significa compreender que resultados consistentes são consequência de um ambiente saudável e não apenas de metas bem definidas.

Nenhuma árvore floresce porque alguém gritou com ela para crescer mais rápido.

Ela floresce porque encontrou condições favoráveis para desenvolver aquilo que já existia em seu potencial.

Talvez o mesmo aconteça conosco.

Um convite para observar o terreno

Quando comecei a desenvolver a Árvore do Cultivo, percebi que cada fundamento da metodologia conduzia naturalmente ao seguinte. O despertar nos convida a perceber que algo precisa mudar. A semente representa o potencial que carregamos. As raízes revelam nossa origem e nossas convicções. O solo, porém, nos lembra que nenhum desses elementos consegue prosperar isoladamente.

Somos profundamente influenciados pelos ambientes que escolhemos construir e pelos ambientes que aceitamos habitar.

Por isso, antes de pensar no próximo projeto, na próxima estratégia ou na próxima meta, vale a pena fazer um exercício mais simples e, talvez, mais transformador. Observe o ambiente ao seu redor. Repare na qualidade das conversas que você tem vivido, na forma como sua equipe enfrenta os desafios, na segurança que as pessoas sentem para contribuir e na coerência entre aquilo que se diz e aquilo que realmente acontece.

Muitas vezes, a resposta que procuramos para acelerar o crescimento não está na árvore.

Ela está, silenciosamente, esperando para ser encontrada no solo.

Convite ao Cultivo

Ao escrever este artigo, percebi que algumas das maiores mudanças da minha vida não começaram quando encontrei uma nova estratégia, mas quando encontrei um ambiente capaz de transformar a maneira como eu observava o mundo. Talvez esse também seja o seu momento.

Gostaria de conhecer a sua história. Houve algum ambiente, uma empresa, uma comunidade, uma cidade, um mentor ou até mesmo um período da sua vida, que mudou profundamente a forma como você cresceu? Se quiser compartilhar sua experiência, me escreva no Instagram. Tenho aprendido que, quando um cultivador divide aquilo que viveu, ele ajuda a preparar um solo mais fértil para que muitos outros também floresçam.

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