Pular para o conteúdo
Rodrigo LaminBiomimética aplicada aos negócios

Liderança & Cultura

Toda organização já está sendo cultivada. A única pergunta é: por quem?

Existe uma ideia bastante difundida no mundo da gestão de que uma organização pode simplesmente “seguir funcionando”. Como se, na ausência de uma liderança atenta à cultura, aos relacionamentos e ao desenvolvimento das pessoas, tudo permanecesse estável até que alguém decidisse intervir novamente.

Padrões naturais na madeira de uma árvore antiga

Existe uma ideia bastante difundida no mundo da gestão de que uma organização pode simplesmente “seguir funcionando”. Como se, na ausência de uma liderança atenta à cultura, aos relacionamentos e ao desenvolvimento das pessoas, tudo permanecesse estável até que alguém decidisse intervir novamente.

A natureza nos mostra exatamente o contrário.

Um terreno abandonado não permanece igual ao longo do tempo. Ele continua sendo transformado. Novas espécies ocupam espaço, outras desaparecem, o solo muda de características, os ciclos se reorganizam e um novo equilíbrio se estabelece. A transformação não depende da presença de um jardineiro. Ela acontece porque a vida nunca entra em pausa.

Talvez o mesmo aconteça com qualquer organização humana.

Essa percepção deu origem a uma das principais convicções da Árvore do Cultivo: toda organização já está sendo cultivada. A única pergunta que realmente importa é quem, ou o quê, está conduzindo esse cultivo.

Quando o líder deixa de cultivar

Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de acompanhar organizações em diferentes estágios de desenvolvimento. Algumas cresciam rapidamente, outras enfrentavam crises profundas e muitas pareciam estar presas em um ciclo de estagnação. Durante muito tempo procurei respostas em estratégias, processos, modelos de gestão e indicadores. Eles certamente fazem parte da explicação, mas hoje acredito que existe uma camada mais profunda.

Sempre que uma liderança deixa de cultivar intencionalmente o ambiente, outras forças assumem esse papel. Se o propósito deixa de orientar as decisões, interesses individuais passam a definir prioridades. Se a confiança não é fortalecida diariamente, o medo começa a influenciar comportamentos. Quando o aprendizado deixa de ser valorizado, a repetição substitui a evolução. E quando pequenas incoerências deixam de ser percebidas, elas acabam se transformando na cultura real da organização.

Nada disso acontece de uma vez. Assim como uma árvore não cresce em um único dia, uma cultura também é formada pela repetição de pequenas escolhas. São elas que, ao longo do tempo, definem o ambiente onde as pessoas trabalham, colaboram e tomam decisões.

O cultivo acontece todos os dias

Talvez seja justamente por isso que tantas organizações tenham dificuldade para explicar a própria cultura. Elas costumam descrevê-la a partir de apresentações institucionais, valores escritos na parede ou discursos inspiradores. Mas a cultura raramente é definida pelo que está escrito. Ela é construída por aquilo que as pessoas vivenciam todos os dias.

É nas reuniões em que opiniões são acolhidas ou ignoradas. É na maneira como um erro é tratado. É nas decisões difíceis, quando os valores são colocados à prova. É na forma como uma liderança reage diante de um conflito ou celebra uma conquista. Cada uma dessas situações adiciona nutrientes ao solo onde aquela organização continuará crescendo.

Por isso, dizer que uma empresa “perdeu a cultura” talvez seja uma interpretação incompleta. A cultura não desapareceu. Ela apenas continuou sendo cultivada por outros fatores que passaram a ocupar o espaço deixado pela intenção.

Uma nova forma de compreender a liderança

Essa mudança de perspectiva altera também o papel da liderança. Liderar deixa de significar apenas acompanhar metas, distribuir tarefas ou controlar resultados. Passa a significar cuidar das condições que influenciam o desenvolvimento do organismo como um todo.

Na natureza, ninguém controla o crescimento de uma árvore. O que pode ser controlado são as condições que favorecem esse crescimento. O solo pode ser preparado, a água pode ser garantida, a luz pode ser respeitada e o ambiente pode ser protegido. O restante é consequência de um processo saudável.

Acredito que organizações funcionam da mesma maneira. Resultados continuam sendo importantes, mas eles deixam de ser o centro da atenção. O verdadeiro trabalho passa a ser cultivar as condições que tornam esses resultados sustentáveis ao longo do tempo.

Foi dessa inquietação que nasceu a Árvore do Cultivo. Não da busca por um novo modelo de gestão, mas da tentativa de compreender por que alguns organismos florescem de forma consistente enquanto outros, mesmo cercados de recursos, acabam perdendo sua vitalidade.

Desde então, uma pergunta passou a me acompanhar em qualquer organização que observo. Não pergunto apenas quais são seus objetivos, seus indicadores ou sua estratégia. Antes disso, procuro entender quem está cultivando aquele organismo.

Porque toda organização já está sendo cultivada.

A única pergunta é: por quem?

UMA RELAÇÃO, NÃO UMA NEWSLETTER

Receba uma nova leitura quando eu publicar.

Sem frequência artificial. Apenas quando houver algo que valha o seu tempo.

Ao se inscrever, você autoriza o envio das próximas Leituras. Você pode sair quando quiser.

Explorar todas as leituras →